Ss. Rústico e Eleutério

Celebramos no dia nove de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa dos santos mártires Rústico, presbítero, e Eleutério, diácono, intimamente associados na sagrada liturgia à memória triunfal de São Dionísio, sob o rito de terceira classe e com paramentos vermelhos. O Martirológio Romano recorda neste dia a paixão destes fidelíssimos ministros do altar, os quais, tendo abandonado a sua terra natal para propagar a luz do Evangelho nas trevas das Gálias, não hesitaram em partilhar dos mesmos atrozes tormentos e da mesma coroa do martírio de seu santo bispo, lavando com o seu próprio sangue o solo pagão que ajudaram a conquistar para a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A vocação sagrada e a obediência ao chamado apostólico

Nascidos nos primeiros séculos da era cristã e nutridos no seio da Igreja nascente, São Rústico e Santo Eleutério foram adornados pela Divina Providência com graças especialíssimas, sendo elevados, respectivamente, à sublime dignidade do sacerdócio e ao santo ministério do diaconato. Animados por um ardente zelo pela salvação das almas e por uma obediência cega aos desígnios do Vigário de Cristo, não hesitaram em abandonar as comodidades da Cidade Eterna e a terna companhia de seus familiares para seguir o glorioso prelado São Dionísio em uma perigosíssima missão apostólica. O destino dessa sagrada empresa eram as inóspitas e selvagens terras da Gália, província do império romano que ainda jazia profundamente mergulhada nas densas trevas da barbárie e na superstição repulsiva da idolatria, aguardando que o sangue dos mártires fecundasse o seu solo para a verdadeira fé.

O zelo pastoral na fundação da Igreja de Paris

Chegando à cidade de Lutécia, a atual Paris, os dois virtuosos clérigos tornaram-se os braços direitos e o sustento espiritual inabalável de seu venerável bispo. Enquanto São Dionísio comandava a grei e enfrentava as temíveis autoridades pagãs, o presbítero Rústico dedicava-se de modo incansável à pregação da sã doutrina, ao batismo dos novos convertidos e à solene celebração dos santos mistérios, coadjuvado em tudo pelo diácono Eleutério, que servia o altar com pureza angélica e distribuía os bens da Igreja aos pobres com exímia caridade. Juntos, este formidável e pequeno exército de clérigos destruiu os altares dos falsos deuses, silenciou os oráculos demoníacos e plantou a Cruz redentora em corações outrora petrificados pelo paganismo, lançando, em meio às perseguições, os alicerces indestrutíveis daquela que viria a ser a gloriosa nação católica francesa.

Os tormentos atrozes e a consumação do martírio

O avanço triunfal e vertiginoso da verdadeira fé provocou o ódio furioso dos sacerdotes pagãos, que incitaram implacavelmente o governador romano Sisiniano contra os apóstolos celestiais. Aprisionados e carregados de pesadas correntes, Rústico e Eleutério foram conduzidos aos tribunais juntamente com o seu bispo. Ameaçados com os mais terríveis castigos caso não oferecessem incenso aos demônios do império, os santos ministros riram-se das vãs promessas terrenas e professaram com voz altiva a divindade única de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foram então cruelmente flagelados, padecendo inumeráveis tormentos nos cárceres escuros e lodosos. Vendo que a fortaleza espiritual daqueles homens superava qualquer sofrimento físico que a crueldade humana pudesse inventar, o tirano ordenou enfim a pena capital. No dia nove de outubro, arrastados até a elevação de Montmartre, o presbítero e o diácono ajoelharam-se com profunda alegria interior, inclinaram suas cabeças abençoadas e receberam o violento golpe da espada, regando com o sangue de seu sacrifício a sementeira da Igreja e subindo vitoriosos ao banquete eterno do Cordeiro Divino.

O luminoso testemunho de São Rústico e Santo Eleutério ensina aos católicos de nossos dias que a fidelidade inquebrantável à hierarquia eclesiástica e o cumprimento rigoroso dos próprios deveres de estado formam o caminho mais seguro para a perfeição cristã. Viver hoje a virtude heroica destes gloriosos mártires significa auxiliar com generosidade, reverência e oração os sacerdotes e prelados que permanecem fiéis à verdadeira doutrina, erguendo uma barreira intransponível contra os ataques do secularismo que tenta banir o nome de Deus da sociedade. Somos convocados a professar a nossa fé com absoluto destemor em todos os nossos ambientes de convivência, rejeitando as novas idolatrias morais do mundo contemporâneo e permanecendo unidos à Cruz de Cristo, inabalavelmente certos de que a glória imortal dos céus está reservada apenas àqueles que, desprezando as conveniências humanas, perseveram no combate espiritual até a consumação total de suas forças.