São Francisco de Bórgia
Celebramos no dia dez de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de São Francisco de Bórgia, Confessor, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano exalta neste dia a memória venerável daquele que, sendo o insigne Duque de Gandia e um dos mais elevados nobres da corte espanhola, compreendeu a ilusão formidável das grandezas humanas e, trocando as honras do mundo pela suprema humilhação evangélica, ingressou na nascente Companhia de Jesus, da qual se tornou o terceiro Prepósito Geral, governando as almas com exímia sabedoria, invencível mansidão e uma santidade que enriqueceu perpetuamente a Santa Madre Igreja.
A glória da corte e a visão aterradora da mortalidade
Nascido no ano de mil quinhentos e dez em Valência, na Espanha, Francisco descendia das mais ilustres linhagens europeias, sendo bisneto, pelos laços paternos e maternos, do Papa Alexandre Sexto e do Rei Fernando o Católico. Educado no seio das grandezas terrenas, foi enviado à corte do Imperador Carlos Quinto, onde a sua prudência, o seu valor militar e a sua lealdade inquebrantável granjearam-lhe os mais altos favores imperiais, sendo nomeado Marquês de Lombay e vice-rei da Catalunha. Todavia, a Divina Providência, que preparava a sua alma para um reino que não passa, desferiu um golpe definitivo contra as suas vaidades no ano de mil quinhentos e trinta e nove. Com a morte súbita e prematura da belíssima Imperatriz Isabel de Portugal, Francisco recebeu a dolorosa incumbência de escoltar o corpo real até a cidade de Granada. Ao chegar ao destino, foi obrigado a abrir o ataúde para jurar legalmente a identidade da soberana antes do sepultamento. Ao contemplar o rosto outrora resplandecente, agora desfigurado e consumido pela terrível corrupção da morte, o nobre fidalgo foi fulminado por uma graça arrebatadora. Diante daquele pó, compreendeu o nada de todas as ilusões humanas e, banhado em lágrimas de compunção, proferiu o seu célebre e irrevogável juramento de que jamais voltaria a servir a um senhor que pudesse morrer.
O governo justo do ducado e a entrada na vida religiosa
Apesar da profunda conversão interior, Francisco continuou a cumprir rigorosamente os seus deveres de estado como esposo fidelíssimo de Dona Leonor de Castro e pai de oito filhos. Herdeiro do Ducado de Gandia após a morte de seu pai, governou as suas terras com uma justiça e uma caridade que espantavam a fidalguia do seu tempo. Transformou o seu palácio em um verdadeiro claustro, onde o luxo foi substituído pelas práticas de piedade, pela recitação do Ofício Divino, pelo socorro diário aos pobres e pela construção de hospitais e colégios. No entanto, a chama da vocação religiosa consumia o seu peito e, após a morte de sua santa e amada esposa, Francisco sentiu que os laços mundanos estavam definitivamente rompidos. Tendo providenciado o futuro e o nobre estabelecimento de todos os seus filhos, renunciou solenemente aos seus vastos títulos, riquezas e dignidades. Humilhando-se até o extremo para expiar a glória passada de sua linhagem, o grande Duque da Espanha lançou-se aos pés de Santo Inácio de Loyola em Roma, suplicando ser admitido como o mais ínfimo e apagado dos noviços na recém-aprovada Companhia de Jesus.
O humilde jesuíta e o fervoroso prepósito geral
Ordenado sacerdote, o Padre Francisco de Bórgia tornou-se o assombro da Europa. O mundo não conseguia compreender como aquele que fora o potentado mais ilustre do império caminhava agora descalço, vestindo uma batina gasta, pedindo esmolas nas portas das mesmas cidades onde antes fora aclamado vice-rei, e carregando a lenha para a cozinha de seu mosteiro com uma alegria indescritível. Quando os Sumos Pontífices e os monarcas tentaram obrigá-lo a aceitar o chapéu cardinalício, Francisco fugia ocultando-se em mosteiros distantes, pois havia feito o voto solene de jamais aceitar qualquer prelazia ou dignidade. No entanto, a obediência impôs-lhe a pesadíssima cruz do governo quando foi eleito o terceiro Prepósito Geral da Ordem. Durante o seu generalato, o seu zelo apostólico não conheceu repouso. Fundou o célebre Colégio Romano, que se tornaria a Universidade Gregoriana, enviou destemidos missionários para as inóspitas selvas do Brasil, do Peru e do México, bem como para a Flórida, onde muitos de seus filhos derramaram o sangue pelo martírio. Exaurido por uma vida de penitências atrozes e viagens contínuas a serviço do Papado, o santo e nobre ancião entregou o seu espírito em Roma, no dia trinta de setembro de mil quinhentos e setenta e dois, consumando no leito de morte a humilhação que o elevou aos cumes da glória celeste.
O exemplo monumental de São Francisco de Bórgia lança um vigoroso e cortante apelo aos católicos de nossos dias, tão frequentemente seduzidos pelas vãs promessas de sucesso terreno e pela busca frenética por prestígio financeiro e social. Viver hoje a virtude deste insigne confessor significa recordar incessantemente a nossa própria mortalidade e a vaidade absoluta de todas as coisas que passam, gravando no mais íntimo de nossos corações o seu santo propósito de nunca mais servirmos a senhores que podem morrer. Somos exortados a cumprir as nossas obrigações seculares e familiares com retidão e honestidade, mas conservando a alma inteiramente desapegada dos bens temporais e das honras ilusórias, abraçando a mortificação interior e a submissão aos ditames da Igreja com tal ardor que, no dia de nossa prestação de contas, possamos herdar, no lugar das coroas corruptíveis deste mundo em ruínas, o diadema imperecível da vida eterna.