São João Leonardi

Celebramos no dia nove de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de São João Leonardi, Confessor, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano recorda neste dia a memória venerável deste incansável apóstolo da reforma tridentina, que, trocando a ciência dos medicamentos terrenos pela medicina espiritual, fundou a Congregação dos Clérigos Regulares da Mãe de Deus, suportou o exílio por amor à verdade e consumiu a sua vida na catequese das crianças e no heroico serviço aos enfermos na cidade de Roma.

A botica terrena e a descoberta da medicina celestial

Nascido na pequena vila de Diecimo, nos arredores da República de Lucca, na Itália, no ano de mil quinhentos e quarenta e um, João Leonardi cresceu no seio de uma família de costumes simples e profunda piedade cristã. Na sua juventude, foi enviado à cidade de Lucca para aprender o ofício de boticário, dedicando-se com afinco ao estudo das ervas e da preparação de medicamentos para o alívio das enfermidades corporais. Contudo, em meio aos frascos e poções, a graça divina iluminou o seu intelecto para compreender que a sociedade do seu tempo, assolada pela ignorância religiosa e pelos ecos nefastos da pseudorreforma protestante, carecia de um remédio muito mais urgente para a salvação das almas. Abandonando a promissora carreira secular, entregou-se aos estudos eclesiásticos e, após madura preparação, foi ordenado sacerdote no ano de mil quinhentos e setenta e dois, assumindo como missão primordial a cura espiritual do rebanho de Cristo por meio da sagrada catequese e da administração dos sacramentos.

O zelo tridentino e a fundação sob o manto da Mãe de Deus

Inflamado pelo espírito de renovação do sacrossanto Concílio de Trento, o novo sacerdote iniciou um vigoroso apostolado, instituindo a Confraria da Doutrina Cristã para ensinar os rudimentos da fé católica às crianças e aos adultos. A sua pregação ardorosa, aliada a uma vida de extrema penitência e adoração eucarística, logo atraiu outros jovens desejosos de imitar o seu exemplo. Foi assim que, no ano de mil quinhentos e setenta e quatro, fundou a Congregação dos Clérigos Regulares, que mais tarde receberia o glorioso título da Mãe de Deus. Todavia, a restauração da disciplina moral e a denúncia da corrupção dos costumes despertaram o ódio implacável de muitos nobres locais e de clérigos relaxados, que viam na santidade de João Leonardi uma reprovação viva de seus vícios. A perseguição atingiu tamanha fúria que o santo confessor foi banido de sua própria pátria, suportando o exílio e as calúnias mais infames com uma paciência invencível, sem jamais proferir uma única queixa contra os seus algozes.

O refúgio romano e a consumação no serviço aos enfermos

Abrigado na Cidade Eterna, o exilado encontrou consolo e amizade nos braços de outros gigantes da santidade de seu tempo, como São Filipe Néri e São José de Calasanz. Em Roma, o seu zelo apostólico não conheceu fronteiras, sendo encarregado pelos Sumos Pontífices de reformar diversas congregações religiosas decadentes, tarefa que executou com admirável prudência, mansidão e firmeza. Tendo o seu olhar voltado para a dilatação da fé católica nas terras de missão, lançou, juntamente com o prelado espanhol João Batista Vives, as bases fundamentais do que viria a ser o célebre Colégio de Propaganda Fide, destinado à sublime formação de sacerdotes missionários. Nos últimos dias de sua peregrinação terrena, quando uma grave epidemia de influenza assolou a cidade de Roma, o venerável ancião não hesitou em esgotar as suas últimas forças no cuidado heroico dos enfermos. Contraindo a moléstia no exercício desta insigne caridade, entregou a sua alma puríssima a Deus no dia nove de outubro de mil seiscentos e nove, coroando uma vida inteira de sacrifícios pela exaltação da Santa Madre Igreja.

O exemplo luminoso de São João Leonardi ensina aos católicos de nossos dias que a verdadeira reforma da sociedade começa invariavelmente pela santificação pessoal e pela instrução sólida na sã doutrina. Viver hoje a virtude deste insigne confessor significa amar profundamente a Tradição, rejeitar as inovações que tentam corromper o depósito da fé e dedicar-se com zelo à transmissão do catecismo católico no seio das nossas famílias. Somos chamados a suportar as incompreensões do mundo com fortaleza evangélica, depositando toda a nossa confiança na Santíssima Virgem Maria, sob cujo manto materno encontraremos a proteção e o vigor necessários para curar as enfermidades morais de nosso tempo e alcançar a coroa imortal da salvação eterna.