São Miguel
Celebramos no dia vinte e nove de setembro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a solenidade da Dedicação de São Miguel Arcanjo, sob o rito de primeira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano recorda neste dia a consagração da antiga basílica erguida em sua honra na Via Salária, em Roma, prestando suprema veneração ao Príncipe dos exércitos celestiais, fiel defensor da glória divina e perpétuo guardião da Igreja Católica contra todas as ciladas do demônio.

O Príncipe da Milícia Celeste e a primeira batalha na eternidade
Segundo a doutrina revelada nas Sagradas Escrituras e o ensinamento constante dos Santos Padres, São Miguel foi constituído por Deus como o chefe supremo de todas as hostes angélicas no momento em que a soberba de Lúcifer rompeu a harmonia do céu. Quando o anjo rebelde, cego pelo próprio esplendor, recusou-se a adorar os desígnios divinos e bradou que não serviria, levantou-se São Miguel ardente de zelo pela honra do Altíssimo e, pronunciando o grito de fidelidade que lhe deu o próprio nome, interrogou com santa indignação quem seria semelhante a Deus. Travou-se então no céu aquela grande batalha descrita por São João no livro do Apocalipse, na qual Miguel e os seus anjos combateram contra o dragão e seus sequazes, precipitando o antigo serpente no abismo do inferno e confirmando na graça eterna os espíritos fiéis. Desde a antiga aliança, conforme atesta o profeta Daniel, este grande Arcanjo foi designado como o protetor especial do povo eleito, velando pela sinagoga judaica até que se cumprisse a plenitude dos tempos com a Encarnação do Verbo Divino.
O padroeiro da Santa Igreja e o condutor das almas ao juízo
Com o nascimento da Igreja de Cristo, fundada sobre o sangue do Redentor, São Miguel passou a exercer o ofício de primeiro defensor da cristandade e guardião do Corpo Místico de Nosso Senhor, assistindo invisivelmente o Sumo Pontífice e os fiéis nas lutas contra as potestades das trevas. A tradição católica e a sagrada liturgia veneram-no também como o anjo do santo combate na hora da morte, a quem compete socorrer os agonizantes nos derradeiros assaltos do inimigo infernal, receber as almas que deixam este mundo e apresentá-las diante do tribunal do Juiz Supremo. Por essa razão, a Santa Madre Igreja invoca o seu nome no Confiteor logo após a Santíssima Virgem Maria, incensa o altar pedindo a sua intercessão para que Deus abençoe as oblatas e, no Ofertório da Missa dos Defuntos, suplica que o porta-estandarte São Miguel introduza as almas dos fiéis na luz santa prometida a Abraão. No final do século dezenove, diante das graves investidas contra a Sé Apostólica, o Papa Leão Décimo Terceiro ordenou que ao término das Missas rezadas em todo o orbe católico fosse dirigida uma prece fervorosa a este invencível Arcanjo, pedindo que reprima novamente no inferno a Satanás e aos demais espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para a perdição das almas.
Os prodígios do Monte Gargano e a dedicação do templo sagrado
A festa litúrgica de vinte e nove de setembro tem sua origem histórica nas admiráveis aparições ocorridas no final do século quinto, sob o pontificado do Papa São Gelásio Primeiro, no Monte Gargano, situado na região da Apúlia, na Itália. Conforme narram as lições do Breviário Romano, um homem rico chamado Gargano, procurando um touro que se havia desgarrado de seu rebanho, encontrou o animal ajoelhado à entrada de uma caverna inacessível e, tendo disparado uma flecha contra ele, viu a seta voltar-se miraculosamente pelo ar e ferir a si mesmo. Consultado sobre o prodígio, o bispo da cidade de Siponto ordenou três dias de jejum e oração, ao cabo dos quais o próprio São Miguel lhe apareceu cercado de luz, declarando que aquela gruta estava sob a sua proteção especial e que desejava ser ali venerado em memória de Deus e dos santos anjos. Pouco tempo depois, tendo os pagãos napolitanos sitiado os cristãos da região, o Arcanjo manifestou novamente o seu poder através de terríveis trovões e relâmpagos que puseram os inimigos em fuga. Quando o bispo e o clero consultaram o Papa sobre a consagração daquela gruta, São Miguel apareceu mais uma vez ao prelado para revelar que não era necessária a dedicação humana, pois ele mesmo já havia consagrado aquele santuário de pedra, onde os fiéis encontraram um altar coberto por um manto vermelho e a marca dos pés angélicos impressa na rocha viva, prodígio que mais tarde se uniu à celebração da solene dedicação da basílica romana na Via Salária.
A contemplação da grandeza de São Miguel Arcanjo convoca todos os católicos dos nossos dias a despertarem do torpor espiritual para a realidade incessante do combate invisível travado pela salvação das nossas almas. Vivendo em uma época marcada pela apostasia das nações, pela exaltação do orgulho humano e pela negação dos direitos soberanos de Deus sobre a sociedade, somos chamados a repetir com nossas obras o brado do Príncipe Celeste, submetendo a nossa inteligência à verdade revelada e a nossa vontade aos mandamentos da Lei divina. Imitar hoje o zelo de São Miguel significa rejeitar sem concessões as máximas mundanas, cultivar uma profunda humildade diante da majestade do Criador, recorrer com frequência aos sacramentos da Confissão e da Eucaristia e invocar diariamente o auxílio deste poderoso guerreiro celeste, certos de que sob o seu escudo protetor venceremos as tentações da vida presente e alcançaremos a paz eterna na Jerusalém do céu.