São Jerônimo
Celebramos no dia trinta de setembro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de São Jerônimo, Sacerdote, Confessor e Doutor da Igreja, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano recorda neste dia o trânsito daquele lume excelso do sacerdócio na aldeia de Belém de Judá, onde, adornado com toda a espécie de sabedoria sagrada e imitando a vida dos monges mais aprovados, abateu com a espada da sua doutrina os monstros de variadas heresias, descansando finalmente na paz do Senhor em avançada velhice.

A juventude em Roma e a dura batalha no deserto de Cálcis
Nascido em Estridão, na região da Dalmácia, por volta do ano trezentos e quarenta, no seio de uma família cristã e abastada, Jerônimo foi enviado ainda jovem para Roma a fim de aperfeiçoar os seus estudos de retórica, gramática e filosofia sob a direção dos mestres mais célebres do império. Na capital do mundo antigo, após experimentar os perigos morais da juventude e a sedução das letras pagãs, sentiu o chamado da graça divina, recebeu o santo Batismo pelas mãos do Papa Libério e passava os domingos percorrendo piedosamente as catacumbas dos santos mártires. Desejoso de entregar-se inteiramente a Deus na vida ascética, abandonou as honras seculares e partiu para o Oriente, internando-se nas solidões abrasadoras do deserto de Cálcis, na Síria. Naquele ermo implacável, o jovem penitente travou combates heroicos contra as tentações da carne e as lembranças dos prazeres romanos, prostrando-se aos pés da Cruz com o corpo coberto de saco, banhando a terra de lágrimas, jejuando semanas inteiras e golpeando o próprio peito com uma pedra até restituir a paz ao espírito. Foi também naquele período que, admoestado interiormente em uma visão mística por ter mais apreço ao estilo de Cícero do que aos livros sagrados, dedicou-se com redobrado fervor a aprender a língua hebraica com um judeu convertido, sujeitando o seu gênio fogoso à dura disciplina daquele idioma para penetrar os mistérios da palavra revelada.
O serviço ao Papa São Dâmaso e o monumento da Vulgata
Deixando a solidão do deserto, Jerônimo foi ordenado sacerdote em Antioquia pelo bispo Paulino, sob a condição expressa de conservar a sua vocação monástica, e pouco depois dirigiu-se a Constantinopla, onde bebeu a ciência teológica nos ensinamentos de São Gregório Nazianzeno. No ano de trezentos e oitenta e dois, a fama de sua imensa erudição e santidade levou o Papa São Dâmaso Primeiro a chamá-lo a Roma para servir como seu secretário particular e conselheiro nas questões mais graves da Igreja. Por ordem direta daquele Sumo Pontífice, o santo doutor iniciou a revisão dos textos latinos da Sagrada Escritura a partir dos originais gregos, ao mesmo tempo em que dirigia espiritualmente um grupo de nobres matronas e virgens romanas, entre as quais brilhavam Santa Paula e sua filha Santa Eustóquia, conduzindo-as aos cumes da perfeição evangélica. Após a morte de seu protetor pontifício, Jerônimo despediu-se definitivamente de Roma e estabeleceu-se em Belém no ano de trezentos e oitenta e seis, fixando a sua pobre cela junto à própria Gruta da Natividade de Nosso Senhor. Ali, governando um mosteiro de monges onde a tradição narra ter acolhido e curado um leão ferido que passou a servi-los com mansidão, dedicou mais de trinta anos de sua vida à obra monumental de traduzir o Antigo Testamento diretamente do texto hebraico e aramaico para o latim, dando origem à versão sagrada conhecida como Vulgata, que mais tarde o sacrossanto Concílio de Trento declararia autêntica e isenta de qualquer erro em matéria de fé e costumes, razão pela qual a Santa Igreja o aclama na Coleta da Missa como o Doutor Máximo na exposição das Sagradas Escrituras.
O martelo dos hereges e o trânsito na gruta de Belém
Da sua humilde cela em Belém, São Jerônimo tornou-se a sentinela incorruptível da ortodoxia católica, consultado por bispos e sábios de todas as partes do orbe cristão. Com uma pena inflamada de zelo apostólico e ardente amor à verdade, fulminou sem piedade todos os inovadores que ousavam profanar o depósito da fé, defendendo a virgindade perpétua da Santíssima Virgem Maria contra a impiedade de Helvídio, exaltando o mérito do celibato consagrado e do jejum contra a sensualidade de Joviniano, sustentando o culto sagrado às relíquias dos mártires contra os ataques de Vigilâncio e desmascarando com vigor os erros de Orígenes e a heresia nascente de Pelágio. Nos últimos anos de sua peregrinação terrena, já alquebrado pelas enfermidades, quase cego pelo estudo contínuo à luz de lamparinas e tendo visto o seu mosteiro ser incendiado por bandos de hereges pelagianos, o invencível ancião não afrouxou em nada o rigor de sua penitência, chegando a erguer o corpo debilitado do leito por meio de uma corda presa ao teto da gruta para recitar o Ofício Divino. Exaurido de forças físicas, mas abrasado de caridade divina, entregou sua grande alma a Deus no dia trinta de setembro do ano quatrocentos e vinte, sendo sepultado inicialmente junto ao presépio do Salvador, até que suas veneráveis relíquias foram trasladadas para Roma e depositadas na Basílica de Santa Maria Maior, onde repousam para a glória da Igreja.
O exemplo admirável de São Jerônimo recorda aos católicos dos nossos dias que a verdadeira sabedoria não consiste nas vãs filosofias do século, mas no conhecimento profundo e amoroso de Nosso Senhor Jesus Cristo através das Sagradas Escrituras, lidas sempre sob a luz infalível da Tradição e do Magistério da Igreja. Viver hoje a santidade deste grande Doutor significa unir o estudo sério da sã doutrina a uma vida de mortificação dos sentidos, combatendo com firmeza as inclinações da natureza decaída, fugindo das ocasiões de pecado que o mundo moderno multiplica e defendendo a verdade católica com intrepidez, sem jamais ceder ao respeito humano ou à falsa paz com o erro.