São Francisco
Celebramos no dia quatro de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de São Francisco de Assis, Confessor, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano recorda neste dia o trânsito abençoado do fundador da Ordem dos Frades Menores, que, abandonando as riquezas terrenas e a vaidade do século, esposou a altíssima pobreza evangélica e tornou-se a tal ponto imagem viva de Cristo Crucificado que mereceu trazer em seu próprio corpo, de modo miraculoso, as feridas sacrossantas da nossa Redenção.
A juventude mundana e o chamado de Cristo em São Damião
Nascido na cidade italiana de Assis por volta do ano de mil cento e oitenta e um, filho do rico comerciante de tecidos Pedro Bernardone, o jovem Francisco passou os primeiros anos de sua juventude entregue às festas, aos cânticos mundanos e às vaidades próprias de sua condição abastada. Alimentando ambições de glória militar, partiu para combater na guerra contra a cidade de Perúgia, onde acabou sendo feito prisioneiro e lançado em um cárcere úmido por um ano inteiro. Foi no silêncio da prisão e através de uma grave enfermidade que a graça divina começou a trabalhar em sua alma, infundindo-lhe um profundo desgosto pelas honras passageiras deste mundo. O golpe definitivo contra o seu orgulho deu-se quando, cavalgando pelos campos, encontrou um leproso de aspecto repugnante e, vencendo a extrema repulsa de sua natureza, apeou do cavalo para beijar-lhe as chagas, experimentando naquele instante uma doçura espiritual inefável. Pouco tempo depois, enquanto rezava na arruinada capela de São Damião, escutou a voz do Cristo Crucificado que lhe falava milagrosamente da cruz, ordenando-lhe que fosse e reconstruísse a Sua Igreja que estava em ruínas. Tomando a ordem ao pé da letra, Francisco passou a mendigar pedras para restaurar as capelas abandonadas, o que provocou a ira de seu pai terreno. Conduzido perante o tribunal do Bispo de Assis, o jovem despojou-se publicamente de todas as suas finas vestes, devolvendo-as ao genitor e declarando que doravante teria apenas um Pai, aquele que está nos céus.
A fundação da Ordem Seráfica e o esplendor da pobreza
Caminhando descalço e vestido com uma túnica rústica em forma de cruz, Francisco começou a pregar a penitência, a paz e a conversão de costumes, atraindo logo os primeiros companheiros que desejavam imitar a sua vida angélica. Juntos, abraçaram uma regra fundamentada na observância literal do Santo Evangelho, renunciando a qualquer propriedade, vivendo das esmolas que mendigavam de porta em porta e dedicando-se à oração contínua e ao cuidado dos enfermos. Dirigindo-se a Roma para submeter sua nova fundação à autoridade da Sé Apostólica, o pobrezinho de Assis encontrou o Papa Inocêncio Terceiro, que, tendo visto em sonho este humilde frade sustentando com os ombros as paredes vacilantes da Basílica de São João de Latrão, aprovou a Ordem dos Frades Menores. O zelo abrasador de Francisco pela salvação das almas e o seu amor incondicional ao Santíssimo Sacramento e aos sacerdotes, cujas mãos ele reverenciava profundamente por serem as únicas capazes de consagrar o Corpo do Senhor, renovaram a face da cristandade. Com o auxílio de Santa Clara, fundou a Segunda Ordem para as virgens consagradas e estabeleceu também a Ordem Terceira, para que os leigos pudessem viver a perfeição cristã no mundo. O seu anseio pelo martírio levou-o a cruzar o mar em direção ao Oriente, onde se apresentou destemidamente diante do sultão do Egito para pregar-lhe a fé católica com tamanha unção e firmeza que arrancou a admiração do soberano muçulmano.
O milagre dos sagrados estigmas e o abraço da irmã morte
Nos últimos anos de sua peregrinação terrena, Francisco retirou-se para a áspera solidão do Monte Alverne a fim de observar uma quaresma de jejum e contínua contemplação da Paixão de Nosso Senhor. Foi nesse retiro, no mês de setembro do ano de mil duzentos e vinte e quatro, que ele teve a visão celestial de um Serafim resplandecente que trazia em si a figura de Cristo pregado na cruz. Do coração do Redentor partiram raios de luz e de fogo que transpassaram as mãos, os pés e o lado do santo confessor, imprimindo em sua carne as chagas físicas da crucifixão, um prodígio até então inédito na história da Igreja. Esgotado pelas rigorosas penitências, pelos labores apostólicos e pelo contínuo fluxo de sangue de suas feridas místicas, além de padecer de uma dolorosa cegueira, o seráfico pai foi reconduzido à sua amada capela da Porciúncula em Assis. Sentindo a aproximação da sua hora derradeira, pediu aos frades que o deitassem nu sobre a terra nua, para que, tendo vivido em absoluta pobreza, pudesse também deixar este mundo desprovido de qualquer amparo terreno. Entoando o Salmo cento e quarenta e um, entregou a sua santíssima alma nas mãos do Criador ao anoitecer do dia três de outubro de mil duzentos e vinte e seis, deixando um legado imperecível de santidade que faria a Igreja aclamá-lo para sempre como o espelho da perfeição evangélica.
O admirável exemplo de São Francisco de Assis ensina aos católicos de nossos dias que a verdadeira liberdade e a perfeita alegria não residem na acumulação de bens materiais ou nos prazeres efêmeros, mas no desapego evangélico e no abraço fiel à cruz de Cristo. Viver hoje a santidade do seráfico pai significa combater o espírito de consumismo com uma vida de simplicidade, mortificação e profunda reverência à Eucaristia e ao sacerdócio católico, exercendo a caridade verdadeira para com os pobres e mantendo uma obediência filial e inabalável à Santa Igreja e aos seus dogmas, certos de que somente esvaziando-nos do nosso próprio orgulho poderemos ser inteiramente preenchidos pela graça divina e pela paz autêntica que o mundo jamais poderá dar.