São Calisto I
Celebramos no dia quatorze de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de São Calisto Primeiro, Papa e Mártir, sob o rito de terceira classe e com paramentos vermelhos. O Martirológio Romano exalta neste dia o triunfo deste invicto sucessor de São Pedro, o qual, tendo conhecido as agruras da escravidão e os trabalhos forçados nas minas tenebrosas, foi elevado pela Divina Providência à suprema cátedra da cristandade, onde defendeu arduamente a disciplina eclesiástica, alargou os tesouros da misericórdia de Cristo para os pecadores arrependidos e consumou o seu pastoreio com o glorioso derramamento de seu sangue na cidade de Roma.

O cadinho da humilhação e as minas da Sardenha
Nascido na segunda metade do século segundo, Calisto experimentou desde a juventude as mais amargas humilhações da condição humana, sendo escravo de um alto funcionário do império chamado Carpóforo, que também era cristão. Tendo recebido do seu senhor a incumbência de administrar as economias de outros fiéis, o jovem viu o empreendimento fracassar, perdendo os bens que lhe haviam sido confiados. Tomado pelo pavor das graves consequências, tentou fugir, mas foi capturado e submetido a duros castigos. Posteriormente, ao tentar recuperar os fundos perdidos cobrando dívidas de credores nas sinagogas, provocou um tumulto que resultou na sua prisão pelas autoridades pagãs. Acusado de perturbar a ordem pública e de professar a fé em Cristo, foi flagelado e condenado aos terríveis trabalhos forçados nas pedreiras da ilha da Sardenha, um verdadeiro matadouro de cristãos onde os confessores pereciam lentamente sob os golpes incessantes, a fome e a exaustão física, forjando o seu caráter no sofrimento.
O guardião do cemitério sagrado e a eleição pontifícia
Após longos anos de padecimentos cruéis, a libertação dos prisioneiros cristãos da Sardenha foi obtida por intermédio de Márcia, uma simpatizante da Igreja que gozava de notável influência na corte do imperador Cômodo. Restaurado à liberdade, o provado confessor retornou a Roma, onde o Papa São Zeferino, reconhecendo a sua profunda virtude, o seu gênio administrativo e o valor imensurável de seus sofrimentos pelo nome de Cristo, ordenou-o diácono e o tomou como seu conselheiro de máxima confiança. O Sumo Pontífice confiou-lhe a sagrada e perigosa missão de administrar o cemitério oficial da Igreja na Via Ápia. Com exímio zelo, Calisto ampliou e organizou aquela monumental rede de galerias subterrâneas que hoje leva o seu nome, as célebres Catacumbas de São Calisto, transformando-as no digno local de repouso de dezenas de mártires e pontífices. Tendo servido fielmente a Santa Madre Igreja com obediência irretocável, com a morte de São Zeferino no ano duzentos e dezessete, o clero e o povo romano, guiados pelo Espírito Santo, elegeram o antigo escravo como o décimo sexto Papa a ocupar o trono de São Pedro.
A defesa da verdadeira misericórdia e a glória do martírio
O pontificado de São Calisto foi marcado por violentas tempestades doutrinárias, exigindo dele a firmeza inabalável de um verdadeiro pastor. O seu maior adversário foi o presbítero Hipólito, homem de vasta erudição, mas eivado de um rigorismo implacável e orgulhoso, que acabou por se tornar o primeiro antipapa da história. Enquanto os cismáticos negavam o poder da Igreja de perdoar pecados gravíssimos, São Calisto ergueu a voz do sagrado Magistério para declarar com autoridade que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo é infinita e que a Igreja possui as chaves supremas para absolver qualquer pecador que se submeta à verdadeira e rigorosa penitência. Além disso, enfrentou as severas e injustas leis romanas ao reconhecer a validade sacramental dos matrimônios entre mulheres livres e escravos, defendendo a dignidade imortal daqueles que o mundo desprezava. O seu frutuoso pontificado encerrou-se de forma sangrenta no ano duzentos e vinte e dois, durante um feroz levante pagão contra os cristãos. A tradição venerável narra que o santo ancião foi cruelmente espancado, amarrado a uma pesada pedra de moinho e atirado no fundo de um poço no bairro do Trastevere, lavando com o seu próprio sangue a cidade que pastoreara com incomensurável caridade.
O testemunho formidável do Papa São Calisto Primeiro revela aos católicos de nossos dias que os desígnios da Divina Providência frequentemente subvertem as vãs expectativas humanas, escolhendo aqueles que o mundo considera os mais desprezíveis para confundir os soberbos e governar a Sua Igreja. Viver hoje a santidade deste glorioso mártir significa nutrir uma confiança inabalável no Sacramento da Confissão, rejeitando com veemência tanto a presunção nefasta de salvar-se sem esforço ou arrependimento quanto o desespero sombrio de julgar que os próprios pecados são maiores que o infinito perdão divino. Somos exortados a cultivar um profundo respeito, amor e obediência à Cátedra de São Pedro, suportando as provações cotidianas, as incompreensões e as injustiças deste século com a mesma paciência heroica daquele que, tendo sido escravo dos homens e prisioneiro nas minas tenebrosas, tornou-se o pastor universal das almas e um rei eternamente coroado na glória incorruptível dos céus.