Santa Teresa

Celebramos no dia quinze de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de Santa Teresa de Jesus, Virgem, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano recorda neste dia o trânsito felicíssimo desta incomparável mística e madre espiritual, que, na cidade de Alba de Tormes, na Espanha, voou para o seu Divino Esposo após ter consumido a sua vida na oração, restaurado a primitiva observância da Ordem Carmelita e enriquecido a Santa Madre Igreja com uma doutrina celestial que conduz as almas aos mais altos cumes da perfeição evangélica.

Imagem de Santa Teresa

A juventude em Ávila e os anos de tibieza no mosteiro

Nascida na nobre cidade de Ávila, na Espanha, no ano de mil quinhentos e quinze, Teresa de Cepeda e Ahumada foi educada no seio de uma família de arraigada piedade católica. Na sua mais tenra infância, inflamada pela leitura da vida dos santos mártires, fugiu de casa com o seu irmão Rodrigo movida pelo ardente desejo de derramar o sangue por Nosso Senhor Jesus Cristo nas terras dos mouros, sendo providencialmente interceptada no caminho por seu tio. Contudo, ao adentrar a juventude, a leitura constante de romances fúteis e as vaidades próprias da idade arrefeceram o seu fervor primitivo. Preocupado com o destino de sua filha, seu pai confiou-a aos cuidados das religiosas agostinianas e, aos vinte anos de idade, após severas lutas íntimas e temendo a condenação eterna, Teresa decidiu abandonar o século e ingressar no Mosteiro da Encarnação da Ordem do Carmo. Ali, em um ambiente monástico marcado pelo lamentável relaxamento da regra e pela profusão de visitas e distrações seculares, a religiosa passou mais de duas décadas mergulhada em um estado contínuo de tibieza e mediocridade espiritual, dividindo tristemente o seu coração entre os prolongados colóquios no parlatório e as suas tímidas tentativas de vida interior.

A conversão diante do Ecce Homo e a ferida de amor

A misericórdia inesgotável de Nosso Senhor, entretanto, não permitiu que uma alma predestinada a tão grande glória perecesse nas teias da mornidão. Aos quarenta anos de idade, ao contemplar casualmente uma imagem de Cristo flagelado e coroado de espinhos, conhecida como Ecce Homo, Teresa foi fulminada por uma graça arrebatadora. Diante daquele corpo sacrossanto e coberto de chagas puríssimas por amor aos pecadores, ela compreendeu a gravidade da sua ingratidão e, banhada em copiosas lágrimas, atirou-se aos pés do Salvador suplicando-lhe a força necessária para jamais voltar a ofendê-lo. A partir daquele instante, a sua vontade foi inteiramente capturada pelo amor divino. Entregando-se sem quaisquer reservas à oração contemplativa, a santa passou a receber visões celestiais, arrebatamentos, locuções interiores e altíssimas revelações místicas. O ápice dessa formidável união consumou-se no assombroso milagre da transverberação, quando um anjo resplandecente transpassou o seu coração repetidas vezes com um dardo de ouro e fogo, deixando a sua alma ferida por um amor tão intenso que lhe causava um sofrimento físico excruciante, envolto, porém, em uma doçura espiritual inefável e em uma sede insaciável de padecer pela glória da Santa Igreja.

A fundação do Carmelo Descalço e o legado imortal

Impulsionada de modo veemente pelo Espírito Santo e amparada pelos sábios conselhos de grandes luminares como São Pedro de Alcântara e São Francisco de Borja, Santa Teresa empreendeu a colossal e espinhosa obra de reformar a Ordem do Carmo, reconduzindo-a à sua aspereza e pureza originais. No ano de mil quinhentos e sessenta e dois, enfrentando formidáveis perseguições, maledicências e incompreensões que brotavam até mesmo dos eclesiásticos, fundou em Ávila o diminuto e pobre Mosteiro de São José, inaugurando a observância das Carmelitas Descalças, pautada na mais rigorosa clausura, na pobreza absoluta, nos rigores da penitência e na contínua intercessão pelos sacerdotes. Sob a obediência estrita aos seus superiores, aquela virgem de saúde fragilíssima e frequentemente atacada por febres e dores atrozes, percorreu as poeirentas estradas da Espanha para fundar dezenas de conventos, unindo a essa obra monumental o genial São João da Cruz para instaurar a reforma também no ramo masculino da Ordem. Por ordem expressa de seus confessores, registrou as maravilhas da graça em sua alma através de obras-primas incomparáveis, como o Livro da Vida, o Caminho de Perfeição e o Castelo Interior, iluminando para todo o sempre os tratados de ascética e mística. Consumida por labores exaustivos e abrasada pelo fogo da caridade, a grande madre rendeu o seu puríssimo espírito a Deus em Alba de Tormes na noite de quatro de outubro de mil quinhentos e oitenta e dois, exatamente no momento em que a Igreja adotava o calendário gregoriano, transferindo a data para o dia quinze de outubro, fechando os olhos para este mundo com a suprema consolação de morrer como uma autêntica e submissa filha da Igreja Católica.

O testemunho abrasador e formidável de Santa Teresa de Jesus lança um severo brado de alerta aos católicos de nossos dias, tão frequentemente mergulhados na tibieza das obrigações cumpridas às pressas e na ilusão perigosa de tentar conciliar o serviço a Deus com os falsos encantos do mundo contemporâneo. Viver hoje a santidade desta inigualável virgem carmelita significa tomar a resolução enérgica e inquebrantável de cultivar uma vida interior profunda, dedicando diariamente um tempo silencioso para a oração mental, o colóquio íntimo e afetuoso com Aquele que sabemos que nos ama. Somos exortados a jamais desanimar diante das nossas misérias e das noites escuras do espírito, a abraçar a cruz dos sofrimentos cotidianos com invencível alegria e a manter uma fidelidade absoluta e irrevogável ao Magistério da Igreja, gravando a fogo em nossas almas a sua máxima consoladora e eterna de que a paciência tudo alcança e de que, para aquele que possui a Deus em seu coração, só Deus basta.