Santa Edwiges
Celebramos no dia dezesseis de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de Santa Edwiges, Viúva, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano recorda neste dia a memória sublime desta ilustre princesa que, ornada com todas as virtudes evangélicas, uniu a mais alta dignidade do mundo a uma vida de formidável mortificação, distribuindo incansavelmente os seus vastos bens aos pobres e, após o falecimento do esposo e de quase todos os filhos, recolhendo-se à obscuridade do claustro para buscar unicamente a Cristo, o seu tesouro incorruptível.

O matrimônio santificado e o governo da caridade na corte
Nascida na Baviera, no ano de mil cento e setenta e quatro, Edwiges era filha do conde Bertoldo de Andechs e foi educada desde a mais tenra infância no santo temor de Deus pelas monjas beneditinas. Por estrita obediência aos desígnios paternos, contraiu sagrado matrimônio com o nobre Henrique Primeiro, o Barbudo, que viria a se tornar Duque da Silésia e da Polônia Maior. Desse consórcio abençoado nasceram sete filhos, cuja educação foi conduzida com extrema vigilância materna, moldando as suas tenras almas no horror ao pecado e na pureza inegociável dos costumes cristãos. A corte ducal, sob a influência celestial de Edwiges, transformou-se rapidamente em um verdadeiro santuário de virtudes heroicas, onde as festas fúteis e as vaidades mundanas cederam o lugar ao amparo contínuo dos órfãos, das viúvas endividadas e dos enfermos incuráveis. A santa duquesa fundou inumeráveis hospitais, asilos e igrejas, além de incentivar o esposo a governar o seu povo com exímia justiça e a patrocinar a instalação de diversas ordens religiosas naquelas terras, sendo ela própria a grande mola propulsora da edificação do monumental e célebre mosteiro cisterciense de Trebnitz.
A austeridade no palácio e o voto supremo de continência
Apesar de viver cercada pelas formidáveis riquezas e pompas inerentes à sua linhagem real, o coração de Edwiges permanecia inabalavelmente desapegado de todas as ilusões da terra. Ela vestia-se de modo simples sob as vestes ducais, usava secretamente um áspero cilício de crina e suportava jejuns severíssimos que deixavam pasmos os seus diretores espirituais e aterrorizavam a sua saúde frágil. Um de seus atos de penitência mais comoventes e notáveis era o de caminhar inteiramente descalça, mesmo durante os crudelíssimos e mortais invernos europeus, por estradas cobertas de neve e gelo espesso para visitar os santuários locais e hospitais. Isso lhe causava feridas profundas e sangrentas nos pés, que ela suportava com indescritível alegria por amor ao sofrimento redentor da Cruz. A sua união espiritual com o esposo atingiu tamanha perfeição evangélica que, após o nascimento do último filho e por mútuo consentimento, ambos emitiram um voto solene de perpétua continência diante do bispo diocesano. A partir daquele dia sagrado, passaram a viver sob o mesmo teto como verdadeiros irmãos em religião, a fim de consagrarem-se com absoluta e irrestrita liberdade aos rigorosos exercícios da piedade cristã e às obras da mais exímia e desgastante caridade para com os miseráveis.
O refúgio no claustro e a fortaleza evangélica nos lutos
Com o falecimento do Duque Henrique, a santa viúva considerou rompidos os seus derradeiros e tênues laços com o mundo secular, retirando-se definitivamente para o mosteiro de Trebnitz, outrora fundado por ela e governado, naquele tempo, por sua própria filha, a abadessa Gertrudes. Embora vivesse em tudo o rigor da observância cisterciense, dormisse no chão duro e participasse da oração em comum, Edwiges decidiu por inspiração divina não professar formalmente os votos religiosos, com o único propósito de conservar a livre administração de seus bens particulares e assim continuar a derramar copiosas e inesgotáveis esmolas sobre os mendigos e prisioneiros da região. O cadinho das tribulações purificou ainda mais a sua grande alma quando, um após o outro, viu falecer a maioria de seus filhos muito amados. A provação suprema deu-se no ano de mil duzentos e quarenta e um, quando o seu amantíssimo e valoroso filho, o Duque Henrique Segundo, tombou heroicamente no campo de batalha de Liegnitz, lutando para defender as fronteiras da cristandade contra a avassaladora e sanguinolenta invasão das hordas mongóis. Diante da notícia dilacerante, enquanto as monjas choravam amargamente a perda, a santa viúva ergueu as mãos ressequidas aos céus e rendeu efusivas e solenes graças a Deus por ter-lhe concedido a honra indescritível de entregar ao Senhor um filho mártir, fiel aos seus juramentos até o derramamento do próprio sangue. Exaurida pelas duríssimas penitências, coroada de méritos incalculáveis e abrasada pelo amor de Cristo, Edwiges entregou a sua alma puríssima ao Criador em mil duzentos e quarenta e três, operando-se quase que imediatamente inumeráveis curas junto ao seu túmulo venerável.
O testemunho grandioso de Santa Edwiges, aclamada pela piedade popular como a infalível consoladora dos endividados e a protetora invencível dos aflitos, lança um vigoroso e necessário apelo aos católicos de nossos dias, tão frequentemente asfixiados pelo desejo desenfreado de acumular dinheiro e pelo materialismo desolador de nossa época. Viver hoje a virtude indomável desta insigne viúva significa cumprir fiel e irrepreensivelmente as obrigações do nosso estado de vida, utilizando os bens temporais não para o luxo egoísta ou para a ostentação vaidosa, mas com profunda generosidade no amparo real dos mais necessitados e no sustento das obras da Santa Igreja. Somos convocados a abraçar corajosamente a mortificação e a penitência voluntária em meio ao conforto amolecedor da sociedade moderna, cultivando a paciência heroica e a inabalável resignação à santíssima vontade de Deus diante da dor e da perda dos nossos entes queridos, absolutamente certos de que somente aqueles que esvaziam o seu coração das efêmeras riquezas deste século estarão plenamente aptos para possuir as moradas eternas e o galardão incorruptível no paraíso celeste.