Santa Margarida Maria Alacoque

Celebramos no dia dezessete de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de Santa Margarida Maria Alacoque, Virgem, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano exalta neste dia a memória sublime desta humilde religiosa visitandina, que, no silêncio inescrutável do claustro de Paray-le-Monial, foi eleita pela insondável Providência Divina para ser a confidente suprema e a apóstola incansável da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, oferecendo a sua própria vida como hóstia de expiação pela frieza dos homens e enriquecendo a Santa Madre Igreja com tesouros inesgotáveis de misericórdia.

Imagem de Santa Margarida Maria Alacoque

A infância provada no cadinho da dor e a consagração virginal

Nascida na Borgonha, no reino da França, no ano de mil seiscentos e quarenta e sete, Margarida Maria foi agraciada desde os seus primeiros anos com um amor instintivo à pureza evangélica e um profundo horror a qualquer mancha de pecado. Com o falecimento prematuro de seu pai, a jovem menina e sua piedosa mãe caíram sob o jugo opressivo de parentes que usurparam a administração dos bens da família, reduzindo-as a uma condição de quase escravidão no próprio lar. Margarida suportou os maus-tratos, as humilhações diárias e as mais severas privações com admirável paciência, encontrando o seu único e dulcíssimo refúgio diante do sacrário da igreja paroquial, onde passava longas horas prostrada em adoração silenciosa. Acometida por uma enfermidade terrível que a prostrou e paralisou por quatro anos ininterruptos, alcançou a cura milagrosa ao fazer o voto solene de consagrar a sua virgindade à Santíssima Virgem Maria. Vencendo as fortíssimas resistências de seus familiares, que desejavam desposá-la a todo custo com ricos fidalgos da região, a jovem finalmente rompeu as amarras do mundo secular e ingressou, aos vinte e quatro anos, no Mosteiro da Ordem da Visitação na cidade de Paray-le-Monial, desejando viver unicamente para o seu Divino Esposo em perpétuo e absoluto esquecimento de si mesma.

As grandiosas revelações e a mensagem do Coração Divino

No silêncio rigoroso do claustro, a humilde religiosa distinguiu-se por uma obediência cega e uma caridade inexaurível, sendo frequentemente alvo da incompreensão de suas próprias irmãs de hábito, que estranhavam as suas sublimes abstrações místicas e a sua inépcia para as tarefas materiais. Foi durante os seus prolongados êxtases diante do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, entre os anos de mil seiscentos e setenta e três e mil seiscentos e setenta e cinco, que Nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se rasgar os véus do céu para lhe manifestar o oceano infinito de sua misericórdia. O Salvador apareceu-lhe resplandecente em majestade, desvendando o Seu peito sagrado e mostrando-lhe o Seu Coração transpassado pela lança, cercado de espinhos pungentes e ardendo em chamas de amor inefável. Em queixas dolorosíssimas, o Cristo lamentou a gélida frieza, a ingratidão amarga e os sacrilégios hediondos com que os homens, e especialmente as almas a Ele consagradas, retribuíam o Seu sacrifício redentor. O Divino Mestre confiou então a Margarida Maria a missão formidável de propagar no orbe católico a devoção reparadora ao Seu Sagrado Coração, pedindo a comunhão frequente, a prática das primeiras sextas-feiras de cada mês em honra ao Seu Coração vulnerado, a instituição da vigília da Hora Santa nas noites de quinta-feira e a criação de uma festa litúrgica especial para reparar a honra divina e aplacar os rigores da Sua justiça.

A cruz da incredulidade e a expansão do reinado de amor

A divulgação de tão assombrosas mensagens celestiais atraiu de imediato sobre a santa monja o peso excruciante da desconfiança. As suas próprias superioras a trataram inicialmente como uma visionária iludida ou enferma, e a sua alma mergulhou no tenebroso mar do abandono e do escárnio, bebendo até a última gota o cálice da humilhação. A Providência Divina, contudo, enviou-lhe em providencial socorro o douto e santo jesuíta Cláudio de la Colombière, que, ao examinar rigorosamente as moções de seu espírito, reconheceu a autenticidade inegável da obra de Deus e tornou-se o grande defensor e propagador das suas revelações. Purificada intensamente pelas contradições e consumida pela febre espiritual de amar e de sofrer pelo seu Esposo, Margarida Maria teve o prêmio de ver a devoção ao Sagrado Coração triunfar dentro e fora de seu mosteiro antes do término de sua peregrinação terrena. Esgotada pelos rigores da penitência e abrasada por uma caridade seráfica, a confidente do Coração de Jesus entregou a sua alma puríssima ao Criador no dia dezessete de outubro de mil seiscentos e noventa, com o santo nome do Salvador nos lábios. A devoção que ela propagou haveria de incendiar as nações inteiras, salvando a Igreja dos resquícios gélidos do nefasto jansenismo e atraindo inumeráveis multidões de pecadores para o porto seguro da graça.

O testemunho suavíssimo e ao mesmo tempo heroico de Santa Margarida Maria Alacoque lança um apelo contundente e urgente aos católicos de nossos dias, imersos em um mundo neo-pagão que virou as costas para o sacrifício infinito de Deus e chafurda na lama da indiferença religiosa. Viver hoje a virtude invencível desta insigne virgem da Visitação significa tomar a firme resolução de desagravar e consolar o Coração Eucarístico de Jesus pelas blasfêmias, profanações e abandono sacrílego de nossos tempos. Somos exortados a abraçar com rigorosa fidelidade a prática das comunhões reparadoras nas primeiras sextas-feiras, a manter acesa a chama da adoração eucarística na Hora Santa e a suportar as incompreensões do mundo laicista com profundo espírito de reparação evangélica, perfeitamente certos de que aqueles que buscarem refúgio na chaga aberta do Divino Coração encontrarão nEle a fortaleza indestrutível para as batalhas desta vida e a promessa infalível da salvação eterna.