Ss. Cosme e Damião

Celebramos no dia vinte e sete de setembro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa dos gloriosos mártires São Cosme e São Damião, sob o rito de terceira classe e com paramentos vermelhos. O Martirológio Romano recorda neste dia o combate daqueles santos irmãos que, na cidade de Egeia, depois de terem superado pelo poder de Deus os tormentos das cadeias, do cárcere, do mar revolto, do fogo, da cruz, das pedras e das flechas, consumaram o seu sacrifício pela decapitação, alcançando tamanha glória na Igreja que os seus nomes foram inscritos para sempre na oração sagrada do Cânon da Missa.

Imagem de Ss. Cosme e Damião

A ciência médica santificada pela caridade cristã

Nascidos na Arábia no século terceiro, no seio de uma família nobre e profundamente cristã, os irmãos gêmeos Cosme e Damião foram educados desde a infância no santo temor de Deus por sua piedosa mãe, Teódota. Desejosos de servir ao próximo, trasladaram-se para a Síria, onde se aplicaram com excelência ao estudo das ciências e da arte da medicina. Iluminados pela graça divina, compreenderam que o cuidado com as enfermidades do corpo deveria servir de instrumento para a salvação eterna das almas. Estabelecidos na cidade marítima de Egeia, na Cilícia, exerciam a profissão médica com uma caridade tão pura e desinteressada que jamais aceitavam qualquer recompensa financeira ou presente de seus enfermos, quer fossem ricos ou pobres, razão pela qual a tradição cristã do Oriente os cognominou anárgiros, vocábulo que designa aqueles que não recebem dinheiro. Mais do que pelos remédios naturais, curavam as doenças mais desesperadas pela invocação do santíssimo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo sinal da Santa Cruz, conduzindo inúmeros pagãos das trevas da idolatria para a luz da verdadeira fé.

Os prodígios divinos diante da fúria dos perseguidores

Quando os imperadores Diocleciano e Maximiano desencadearam uma feroz perseguição contra a Igreja Católica, a fama das conversões operadas pelos santos médicos chegou aos ouvidos de Lísias, prefeito da Cilícia e inimigo cruel do nome cristão. Presos por ordem do tirano juntamente com seus outros três irmãos de sangue e de fé, chamados Antimo, Leôncio e Euprépio, os santos confessores foram conduzidos ao tribunal e intimados a oferecer incenso aos falsos deuses do império. Diante da recusa inabalável e da intrépida profissão de fé dos cinco irmãos, Lísias ordenou que lhes fossem aplicados suplícios atrozes nos braços e nos pés, mandando em seguida lançá-los ao mar profundo carregados de pesadas correntes. Todavia, um Anjo do Senhor desceu do céu, despedaçou as amarras e conduziu os mártires ilesos de volta à praia. Atribuindo o prodígio à magia, o governador enfurecido mandou arremessá-los dentro de uma fornalha ardente, mas as chamas abriram-se milagrosamente sem lhes queimar um único fio de cabelo, enquanto os santos entoavam louvores ao Criador no meio do fogo. Submetidos depois ao tormento do cavalete e suspensos em cruzes para serem apedrejados e alvejados por arqueiros, viu-se um novo milagre da onipotência divina, pois as pedras e as setas lançadas detinham-se no ar e voltavam-se com violência contra os próprios carrascos, ferindo muitos dos pagãos que assistiam ao espetáculo.

A consumação do sacrifício e a glória no Cânon Romano

Vendo-se inteiramente derrotado pela virtude celeste que protegia os servos de Cristo e temendo que a multidão inteira se convertesse diante de tão manifestos prodígios, o prefeito Lísias sentenciou os cinco irmãos à pena capital pela espada. No dia vinte e sete de setembro, por volta do ano trezentos e três, Cosme, Damião e seus três irmãos inclinaram piedosamente as cabeças sob o golpe do verdugo, entregando suas almas puras nas mãos do Supremo Juiz. Os fiéis recolheram com imensa veneração as sagradas relíquias, que foram trasladadas para a cidade de Cirro, na Síria, onde o túmulo dos mártires se tornou fonte contínua de curas milagrosas. O culto aos santos médicos difundiu-se rapidamente por toda a cristandade, levando o Papa São Félix Quarto, no século sexto, a edificar em Roma uma magnífica basílica em sua honra sobre o antigo Fórum da Paz, além de a Santa Madre Igreja perpetuar a memória de seu triunfo na liturgia diária do Santo Sacrifício do Altar, invocando a sua intercessão logo após os santos Apóstolos e os primeiros pontífices mártires.

A vida admirável e o martírio glorioso de São Cosme e São Damião ensinam aos católicos dos nossos dias que os talentos intelectuais e o exercício de qualquer profissão terrena só alcançam o seu verdadeiro valor quando ordenados à glória de Deus e à salvação das almas. Em um mundo dominado pelo materialismo, pela ambição do lucro e pelo esquecimento da eternidade, o exemplo destes médicos santos convoca cada fiel a exercer os seus deveres de estado com retidão, desprendimento dos bens passageiros e ardente caridade fraterna, socorrendo as misérias temporais do próximo com os olhos fixos na sua conversão espiritual e mantendo uma fidelidade inegociável à doutrina de Cristo mesmo diante das pressões, incompreensões e hostilidades do século presente.