São Bruno

Celebramos no dia seis de outubro, segundo o calendário do Missal Romano de mil novecentos e sessenta e dois, a festa de São Bruno, Confessor, sob o rito de terceira classe e com paramentos brancos. O Martirológio Romano recorda neste dia o trânsito abençoado deste insigne patriarca, que, desprezando as mais altas dignidades eclesiásticas e as vãs glórias do século, retirou-se para as montanhas escarpadas da Cartuxa, onde fundou uma ordem de perpétuo silêncio e rigorosa penitência, legando à Santa Madre Igreja um exército invisível de almas contemplativas que, isoladas do mundo, sustentam o orbe católico com as suas orações, vigílias e sacrifícios.

O brilhantismo intelectual e a fuga das vaidades do mundo

Nascido na cidade de Colônia, na Alemanha, por volta do ano de mil e trinta, no seio de uma família de notável nobreza e piedade, Bruno foi dotado pela Divina Providência de uma inteligência peregrina e de uma inclinação natural para as virtudes. Enviado à célebre escola da Catedral de Reims, na França, dominou com maestria as ciências sagradas e a filosofia, sendo logo nomeado cônego e chanceler daquela diocese. A sua fama de sábio teólogo e mestre exímio atraía discípulos de toda a Europa, entre os quais o futuro Papa Urbano Segundo. Todavia, a convivência com as intrigas da corte episcopal, dominada então por um arcebispo simoníaco, e a profunda meditação sobre a brevidade da vida, encheram o seu coração de um sagrado fastio pelas honras seculares. A tradição piedosa narra que o golpe definitivo contra as suas amarras terrenas deu-se durante as exéquias de um célebre e respeitado doutor em Paris, o qual, no meio do ofício de defuntos, ergueu-se milagrosamente do esquife para bradar com voz terrível que havia sido julgado e condenado pelo justo tribunal de Deus. Aterrado pela visão da severidade da justiça divina e compreendendo que a ciência humana de nada vale sem a verdadeira santidade, Bruno fez o voto irrevogável de abandonar o mundo, buscando unicamente os bens celestiais.

As sete estrelas e a fundação do deserto da Cartuxa

Renunciando a todos os seus bens e posições, São Bruno, acompanhado por seis companheiros animados do mesmo santo propósito, dirigiu-se à cidade de Grenoble para buscar a orientação do bispo local, São Hugo. Na noite anterior à chegada dos penitentes, o santo prelado tivera uma visão profética na qual contemplava o próprio Deus edificando um templo em um deserto inóspito de sua diocese, enquanto sete estrelas luminosas desciam do céu para guiar os passos dos construtores. Reconhecendo em Bruno e seus discípulos as estrelas de sua visão, São Hugo cedeu-lhes o deserto montanhoso da Cartuxa, um local medonho, cercado de rochedos íngremes, neves perpétuas e abismos profundos. Ali, no ano de mil e oitenta e quatro, nasceu a Ordem dos Cartuxos. Os monges construíram um pequeno oratório cercado de celas individuais, onde viviam em absoluto e perpétuo silêncio, separados dos homens para conversarem apenas com Deus. A regra não escrita da Cartuxa, fundamentada no exemplo do fundador, exigia um rigor extremo, abstinência perpétua de carne, contínuos jejuns a pão e água, o uso constante do cilício de crina e a interrupção do sono no meio da noite para o canto do Ofício Divino. Apesar de tamanha austeridade, a alma de São Bruno transbordava de uma alegria inefável, sendo frequentemente ouvido suspirar as palavras que se tornariam o lema de sua vida interior, exclamando Oh Bondade, diante da infinita misericórdia de Deus.

A santa obediência, a recusa da mitra e o último retiro na Calábria

O perfume da santidade que exalava daquele deserto gelado chegou aos ouvidos do Papa Urbano Segundo que, enfrentando graves tormentas no governo da Igreja, ordenou que o seu antigo mestre fosse a Roma para auxiliá-lo como conselheiro. Obedecendo prontamente à voz do Vigário de Cristo, São Bruno deixou com lágrimas a sua amada solidão e transladou-se para a corte pontifícia. O seu auxílio foi de inestimável valor para a Sé Apostólica, mas a alma do santo asfixiava-se em meio ao tumulto da cidade e aos negócios seculares. Quando o Sumo Pontífice tentou nomeá-lo Arcebispo de Reggio, São Bruno suplicou de joelhos que o deixassem retornar à sua vida oculta. Comovido, o Papa cedeu, permitindo que ele se retirasse para a região da Calábria, no sul da Itália, onde fundou o mosteiro de Santa Maria da Torre, nos mesmos moldes da sua amada Cartuxa. Ali, o santo patriarca passou os seus últimos anos em profunda paz e união contemplativa, rendendo a sua santíssima alma a Deus no dia seis de outubro de mil cento e um, com os lábios professando ardentemente a fé católica no mistério da Santíssima Trindade e na presença real de Cristo na Eucaristia. A sua ordem, que traz como divisa a frase gloriosa de que a Cruz permanece firme enquanto o mundo gira, tem a singular honra de ser a única na história da Igreja que jamais necessitou de reforma, pois nunca perdeu o seu primitivo fervor.

O exemplo monumental de São Bruno, amante apaixonado do silêncio e da penitência, lança um apelo contundente aos católicos de nossos dias, imersos em uma sociedade doentia que foge de Deus através do ruído incessante, da agitação perpétua e da busca frenética por prazeres efêmeros. Viver hoje a santidade deste insigne confessor significa criar em nossas próprias casas e corações verdadeiros refúgios de silêncio e recolhimento, onde a oração íntima suplante as distrações mundanas. Somos chamados a mortificar a nossa curiosidade, a guardar os nossos olhos e ouvidos das vaidades da internet e da mídia, e a abraçar com alegria as pequenas cruzes diárias, certos de que somente quando a alma se cala para as futilidades deste mundo é que ela se torna capaz de escutar a voz soberana de Deus e saborear a paz inalterável que a Cruz de Cristo nos conquistou.